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Governo pode se tornar maior cliente das startups brasileiras

Governo pode se tornar maior cliente das startups brasileiras

As compras públicas de inovação no Brasil ainda são uma fatia pequena do mercado para as startups, mas o tema ganha força na agenda dos governos e do ecossistema de empreendedorismo. O setor público representa cerca de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Mesmo assim, a participação das startups nesse mercado é limitada diante do potencial.

De acordo com o Sebrae, o principal problema não é a capacidade das startups de criar soluções, mas a dificuldade dos órgãos públicos em estruturar e colocar em prática mecanismos voltados à inovação. “O Sebrae entende que as startups brasileiras já possuem maturidade e capacidade para comercializar soluções inovadoras ao setor público. O desafio está em ampliar o conhecimento e a utilização dos instrumentos de compras públicas de inovação por parte das organizações públicas”, explica Dario Joffily, gestor nacional do CatalisaGov, programa do Sebrae que conecta startups e governos.

Para a entidade, os entraves envolvem a burocracia dos processos públicos e a falta de familiaridade de gestores e empreendedores com os instrumentos disponíveis. A cultura organizacional do setor público também é um fator relevante, especialmente em ações que lidam com risco tecnológico, testes e inovação aberta.

A virada regulatória das compras públicas

O tema começou a avançar de forma mais consistente. Desde 2021, o Marco Legal das Startups criou o Contrato Público para Solução Inovadora (CPSI). Esse instrumento permite que órgãos públicos contratem serviços para testar e desenvolver soluções inovadoras, inclusive em cenários com risco tecnológico.

Desde então, iniciativas sobre o tema ganharam mais escala em governos municipais, estaduais e federais. Elas são acompanhadas por programas de capacitação, articulações institucionais e aproximação com startups. “Existe uma mudança em curso. O interesse crescente de órgãos públicos em diferentes níveis federativos mostra que compras públicas de inovação estão entrando de forma mais consistente na agenda dos ecossistemas de inovação”, afirma Joffily.

Para o Sebrae, o potencial econômico é grande. A entidade avalia que, se uma pequena parte das compras governamentais fosse direcionada a soluções inovadoras, o volume de recursos poderia ser comparável ou até maior que o dos principais fundos nacionais de fomento à inovação.

Além do impacto econômico para as startups, as compras públicas de inovação são vistas como uma ferramenta para modernizar o Estado. A ideia se aproxima do conceito de inovação aberta usado por grandes empresas privadas, que apresentam desafios ao mercado em busca de soluções externas. “No setor privado, a inovação aberta já está consolidada como estratégia de transformação. No setor público, a lógica é semelhante, mas exige processos regulados e instrumentos jurídicos que garantam segurança para testar soluções inovadoras”, diz Joffily.

O que falta para startups venderem ao governo

Apesar do potencial, acessar o setor público exige das startups uma preparação diferente da necessária para clientes privados. Além da qualidade técnica, fatores como governança, capacidade operacional e adaptação ao ambiente regulatório são decisivos.

Segundo o Sebrae, um ponto central é a capacidade de validar soluções em ambiente real por meio de instrumentos como o CPSI. Nesse modelo, as startups precisam mostrar inovação tecnológica e capacidade de execução em um contexto mais complexo e regulado. A maturidade operacional também é importante. Diferente do mercado privado, que tem ciclos de contratação mais rápidos e flexíveis, o setor público pode ter prazos mais longos, mais etapas de validação e exigências formais que afetam a dinâmica das startups.

“Um dos erros mais comuns é não compreender a complexidade contratual do setor público e seus ciclos mais longos de contratação e decisão. Além disso, muitas startups têm dificuldade em adaptar seus produtos à realidade da administração pública, que exige cuidados específicos em áreas como integração, segurança, transparência e prestação de contas”, afirma Joffily.

Outro desafio é o entendimento dos instrumentos de contratação. Para ampliar a presença das startups, o Sebrae aposta na articulação entre ecossistemas de inovação e administração pública. A estratégia inclui preparar empreendedores e apoiar órgãos públicos interessados em estruturar processos de contratação de soluções inovadoras.

Uma das principais iniciativas é o CatalisaGov, programa que apoia governos na formulação de desafios públicos, definição de instrumentos jurídicos e condução de processos de seleção e teste de soluções de startups. “O papel do Sebrae é estruturar essa ponte entre startups e setor público. Além de apoiar os órgãos públicos na realização das compras públicas de inovação, o Sebrae também utiliza sua capilaridade para divulgar essas oportunidades e facilitar o acesso dos pequenos negócios inovadores a esse mercado”, diz Joffily.

O movimento já gera casos concretos. Um exemplo recente ocorreu no Porto do Itaqui, administrado pela Empresa Maranhense de Administração Portuária (EMAP). Com apoio do Sebrae e do CatalisaGov, três startups foram contratadas por meio do CPSI para desenvolver soluções de contenção de derramamento de grãos e fertilizantes e gerenciamento da operação de ferry boats na região.

Para o Sebrae, exemplos como esse mostram que as compras públicas de inovação podem abrir novos mercados para startups e modernizar serviços públicos em áreas estratégicas. A expectativa é que o avanço de instrumentos legais e a disseminação de conhecimento sobre o tema consolidem o Estado como um dos principais clientes do ecossistema brasileiro de startups.

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Sobre o autor: Sofia Almeida

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